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Thiago Feres, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Ele é considerado um dos maiores compositores da história do samba. Nascido no bairro de Vila Isabel, onde cresceu e dali partiu para o céu, Noel Rosa foi o grande responsável pela democratização do gênero musical. Este ano, as rotineiras homenagens são mais justificáveis, já que se comemora o centésimo ano de seu nascimento.
Mesmo sendo de uma família de classe média, subiu morros e conviveu em bares com diversos compositores anônimos, quebrando o paradigma de que o samba era apenas para os mais pobres. Viveu apenas 27 anos, tempo suficiente para que suas letras se perpetuassem. Até hoje, Noel é objeto de estudo e motivo de orgulho para o samba e para o bairro de Vila Isabel.
– O grande mérito de Noel foi conseguir trazer para as letras das músicas o que era ser carioca naquela época – analisa a professora de música popular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Regina Meirelles. – Antes dele, os sambas não eram atuais. Sempre falavam do passado e glorificavam a africanidade. Noel mudou isso.
Podemos dizer que a presença de Noel em Vila Isabel é física. Desde o ano de 1996, uma estátua em homenagem ao poeta foi construída na entrada do bairro, no início da Boulevard 28 de setembro.
O restaurante Capelinha, antiga cafeteria Ponto Cem Réis, é um dos únicos lugares frequentados por Noel que resistiu ao tempo e segue funcionando, o que justifica o saudosismo verificado por lá.
– Convivi com muita gente que viu Noel largado pelos bancos da então cafeteria – relata o gerente Francisco Souza. – Estou aqui há 40 anos e sinto um orgulho incrível de estar em um estabelecimento frequentado por um gênio. Pelos relatos, a canção Conversa de Botequim foi escrita exatamente aqui.
A mesma cafeteira que serviu o poeta ainda é utilizada. Fabricada em 1918, o equipamento da marca Monarca já opera há 92 anos. Nas paredes do Capelinha, muitos quadros fazem homenagem ao compositor.
– Ele colocou o bairro no mesmo patamar de dois grandes estados do país, quando dizia que São Paulo era a responsável pela cana, Minas pelo leite, e Vila Isabel pelo samba – conta o professor do Instituto de Geografia Cultural da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), João Baptista de Mello.
O jeito carioca do poeta, fazendo piadas e atribuindo apelidos aos colegas de turma, começou a se formar dentro das salas de aula do Colégio de São Bento, na Praça Mauá, onde estudou entre 1923 e 1928. Atualmente, o colégio possui uma exposição em homenagem aos grandes nomes que passaram por lá, entre eles Noel Rosa. No entanto, provas e boletins ainda não foram localizados no acervo.
– Reproduzimos em uma das paredes da sala de exposição a inscrição do nome de Noel Rosa, feita no ato da sua matrícula. Vamos buscar novos documentos até o fim do ano. Para nós, é motivo de muito orgulho saber que ele passou por aqui – afirma a historiadora do São Bento, Aline Menezes.
Ao longo de sua vida, Noel teve várias namoradas. Casou-se em 1934 com Lindaura, mesmo sendo apaixonado por uma mulher chamada Ceci, que era a dama de um cabaré. O sambista nos deixou em 4 de maio de 1937, depois de ter uma série de complicações em decorrência de uma tuberculose.
Um gênio desconhecido por jovens de Vila Isabel
O compositor Noel Rosa dispensa apresentações para grande parte da população mundial. No entanto, para muitos alunos do Colégio Estadual João Alfredo, localizado no reduto frequentado pelo poeta (Vila Isabel), o compositor ainda é uma figura obscura ou desconhecida.
Nem mesmo após a homenagem da Unidos de Vila Isabel no Carnaval de 2010, quando a agremiação terminou em quarto lugar entre as 12 escolas e escolheu como enredo o centenário do nascimento do poeta (comemorado em 11 de dezembro), o gênio passou a ser figura pública entre os estudantes.
– Não sei lhe dizer quem foi Noel Rosa – admite a jovem Luana Moura, 17, diante de uma enorme ilustração do poeta estampada no muro da instituição de ensino.
O coro foi reforçado por Diego Farias, também estudante.
– Sei que ele foi um grande boêmio, mas não saberia dar detalhes – confessa.
Já o jovem Gefférson Santos, 17, contrariou os amigos. Ele soube relatar também alguns momentos da vida do gênio.
– Ele foi um grande compositor e cantor. Quebrou um paradigma ao trazer o samba dos negros e do morro para o asfalto. Também tocou com muitos músicos e integrou o Bando dos Tangarás. Sou de Vila Isabel e acompanhei tanto os ensaios quanto o desfile da nossa escola de samba. Foi uma homenagem merecida – opinou.
O professor do Instituto de Geografia Cultural da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), João Baptista de Mello, atribui o desconhecimento dos alunos à falta de memória existente no país.
– Falta divulgação daqueles que foram os grandes nomes da nossa música. O rádio não toca canções de grandes artistas do passado, assim como a televisão. As pessoas só conhecem pop e funk, mas ninguém sabe cantar música popular brasileira – opina.
Para o historiador Alessandro Ribeiro, algumas épocas do passado musical deveriam se tornar disciplinas obrigatórias nas escolas de todo o país.
– Sei que estamos num país onde a desigualdade social é grande. Mas, não consigo admitir que um jovem não tenha conhecimento de quem foi, por exemplo, Noel – revolta-se.