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Por Mirian Bottan
Uma vez, eu conheci um cara que estava sempre sorrindo para as pessoas ao seu redor. Claro que ele devia ter seus dias cú virado, mas me parecia que, ainda nesses dias, ele tentava ser simpático, sempre. E não estou falando de ser simpático com os amigos, família e colegas de trabalho, mas com o cara do guichê do metrô, a atendente do pedágio e a caixa do supermercado. Aliás, ele sempre perguntava os nomes e os tratava pelos mesmos, perguntando como estavam.
Eu achava aquilo sensacional, porque ele conseguia fazer qualquer uma daquelas pessoas sorrir. Foi nessa época que eu percebi o quão carente de simpatia nós estamos.
Desde então, eu, que mesmo antes tentava ser NO MÍNIMO simpática com as pessoas no meu dia-a-dia, tentei aprimorar a técnica e ficar parecida com ele. Claro que falta muito (principalmente a cara-de-pau necessária), mas eu aprendi que na maioria das vezes que você sorri pra alguém, mesmo alguém que está tendo um dia ruim, a pessoa sorri de volta. E, de repente, o humor dela até melhora.
Parece simples, e é. Desde que você aprenda a lidar com a praga que faz o caminho inverso: a frustração alheia.
Se alguém está triste, chora. Se está com raiva de algo específico, geralmente foca naquilo e não desconta em todo mundo. Mas uma pessoa frustrada é capaz de acinzentar todo o ambiente ao seu redor.
Homens e mulheres frustrados por um casamento insatisfatório ou por ter que trabalhar no que não gostam para sustentar a família podem facilmente foder a vida de quem precisa conviver com eles. Pessoas que empurram a vida com a barriga, sonhando com outras coisas, mas sem coragem ou condições pra dar a volta e tomar um outro rumo, e terminam por achar formas de causar o sofrimento nos outros, talvez pra não se sentirem tão mal. Vai saber.
O que interessa é que, se você se deixa afetar por esse tipo de energia, você acaba descontando a frustração de não poder impedir o ataque em uma terceira pessoa. Que, se não conseguir não se deixar afetar, repassa pra uma quarta e assim por diante. É a corrente do mal.
E o maior problema é que, pra uma pessoa que sorri pra caixa do supermercado, existem CINQUENTA repassando energia negativa. Comofas?
Eu conheço duas mulheres, de mesma idade e estrutura familiar. A primeira tem e faz tudo o que quer, mas casou por falta de alternativas e é extremamente frustrada e infeliz. Já a outra, com o casamento completamente fodido (com um cara que ela ainda ama, mas que não dá a mínima pra ela) e orçamento mais limitado, é extremamente altruísta e faz com que todos ao seu redor se sintam bem e seguros.
O mal não nasce por causa dos problemas. Nasce em quem deixa a terra fértil pra ele.
Mirian Bottan é co-autora do blog Substantivolátil (www.substantivolatil.com) e segundo descrição de seu perfil "aprendeu a falar antes mesmo que andasse, e a ler aos 4 anos e meio, por conta própria". www.twitter.com/mbottan