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Caso Aline Silveira Soares: Acusados adotaram a estratégia de apontar falhas no inquérito

Publicado em 05/07/2009 às 14h58

ATrês dos quatro acusados do brutal assassinato da estudante Aline Silveira Soares, morta em outubro de 2001, durante a Festa do 12, em Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, adotaram a estratégia de apontar falhas no inquérito policial que resultou no processo conhecido como o crime do RPG. Camila Dollabela Silveira, de 26 anos, e Edson Poloni de Aguiar, de 27, afirmaram que foram ameaçados na delegacia da cidade histórica. Já Cassiano Inácio Garcia, também de 27, sustentou ter sido maltratado no local. O último réu, Maicon Fernandes Lopes, da mesma idade dos amigos, negou de forma veemente a denúncia feita pelo Ministério Público Estadual (MPE).

Os depoimentos dos quatro réus começaram às 13h10 e terminaram pouco depois das 21h. A sessão foi encerrada às 21h45. Neste sábado, às 13h, a juíza presidente do Tribunal do Júri, Lúcia de Fátima Magalhães Albuquerque Silva, acompanha o debate entre a promotoria e os advogados de defesa, que está previsto para durar de cinco a sete horas. A sentença deve ser divulgada à noite.

O depoimento mais aguardado era o de Camila, prima da vítima. Emocionada, ela entrou no salão do júri por volta das 19h e chorou ao responder algumas perguntas do seu advogado, Francisco Rogério Del Corsi. Mas foi firme ao criticar o trabalho da Polícia Civil. Disse, por exemplo, que procurou o delegado responsável pelo caso para lhe dizer que Aline havia ficado com um rapaz chamado Fabrício no feriado prolongado. “Porém, o policial não quis entrar em maiores detalhes sobre o Fabrício. Só queria que eu fornecesse dados do Edson, do Cassiano e do Maicon. E me ameaçou de prisão.”

Ela não soube dar maiores detalhes sobre Fabrício. Afirmou que a tarefa caberia à polícia, que ignorou a informação. Assim como ela, Edson também contou aos jurados que foi coagido pelos investigadores. Segundo o jovem, ele foi à delegacia, por determinação do delegado, para esclarecer dúvidas de um depoimento que havia prestado dias antes. O rapaz afirmou que foi “chamado” ao local para explicar regras do RPG e que em momento algum sabia que suas palavras constariam no inquérito como depoimento, o qual foi obrigado a assinar.

Ele também se emocionou no júri e não segurou as lágrimas. O rapaz lamentou o pesadelo vivido pela família da vítima: “Pelo amor de Deus, peço que peguem a verdadeira pessoa que fez isso. Quero justiça de verdade”. O jovem, que estudava artes cênicas na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) na época do crime e que hoje é vendedor num shopping de Vitória (ES), sustentou que há anos carrega uma cruz por um crime que não cometeu. “Meu irmão tem 8 anos. É a mesma idade do processo”, disse.

O pai do rapaz, Edson, policial civil aposentado do Espírito Santo, acompanhou a oitiva na primeira fila do salão. Ao ver Edson chorar, retirou os óculos e também limpou as lágrimas. Uma funcionária do fórum lhe entregou um copo d’água. Sem esconder a tristeza e o nervosismo, deixou o júri mais de uma vez para fumar. A mãe de Cassiano, Dora Garcia, também acompanha o julgamento desde o primeiro dia e não esconde a apreensão quanto ao futuro do filho.

Cassiano, que também era matriculado no curso de artes cênicas na Ufop e atualmente ganha a vida como agricultor, teceu mais críticas ao trabalho da Polícia Civil. “A investigação não foi feita de forma correta. A polícia demorou, por exemplo, cinco dias para fazer a busca e apreensão de objetos lá em casa”, recordou o jovem, que residia na República Sonata, onde Aline se hospedou durante a Festa do 12 de 2001. O corpo da jovem foi encontrado seminu e com 17 perfurações sobre um túmulo da igreja Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia na manhã de 14 de outubro.

O rapaz é filho único e contou que seus pais sofrem com o pesadelo que ele vem enfrentando. Ele questionou algumas informações do inquérito. Por exemplo, afirmou que suspeitos não lavaram o chão da república porque o piso estaria sujo de sangue. “Se a polícia dissesse que não poderíamos limpá-lo não teríamos feito isso. Mas, naquele dia, ainda éramos testemunhas, e não acusados.” No processo, a versão oficial é a de que o sangue da estudante sujou a camisa de um dos rapazes e que, quando o assassino chegou à república, manchou o piso da moradia.

ATRASO

Minutos antes do depoimento de Cassiano, o aguardado julgamento foi interrompido por cerca de meia hora. Por volta das 15h, a magistrada se irritou com jornalistas da cidade que desrespeitaram a ordem de não filmar e fotografar os réus e determinou que o salão do Tribunal do Júri fosse esvaziado.

A entrada – tanto da imprensa quanto de curiosos – só foi permitida com a condição de que máquinas fotográficas e filmadoras ficassem do lado de fora. Mais uma vez, vários moradores de Ouro Preto e de cidades vizinhas que não conseguiram acesso ao salão não se importaram de aguardar, numa fila na porta do fórum, alguém sair para vagar um assento.

Boa parte do público que acompanha o julgamento é formado por estudantes de direito. Vários chegaram ao fórum pouco antes do meio dia e testemunharam os réus entrando no prédio antigo. Os rapazes chegaram a pé, mas Camila e seu advogado, Francisco Rogério Del Corsi, foram ao casarão numa viatura da Polícia Militar. O bacharel questiona a segurança no local. Já a PM, que fechou o trânsito no quarteirão do fórum nos três dias do julgamento, reforçou o efetivo no Tribunal do Júri e adjacências. O reforço permanecerá no prédio até que o fim do julgamento.



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